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Entre a mistura e a luta: escrevivência de um pardo pela superação do racismo — por Diplomata Ronaldo Vieira

A história explica. A pretensa estrutura racial brasileira explica.

Entre a mistura e a luta: escrevivência de um pardo pela superação do racismo

Por Ronaldo Vieira[1]

Caro leitor, poderia começar essa narrativa, contando uma bonita e atraente estória, mas decidi tecer as próximas linhas como uma reunião dominical com o pároco: uma confissão! Quem sou eu? Permita-me apresentar: “Eu sou o vento que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma”.

A minha história familiar é, ao mesmo tempo, comum e reveladora. Sou pardo. Aos que já não mais têm paciência com essa história adianto: vou “chover no molhado”. Ainda assim escreverei a vivência de minhas palavras (mas tenham paciência, que o texto vai ficando interessante em seu desenrolar). Como tantas famílias comuns brasileiras, meu pai vem de uma família negra; minha mãe, de uma família branca. Claro que essa é uma frase que cai na vala das falas mais recorrentes de brasileiros que defendem o mito da democracia racial brasileira. Mas (perigo!) essa divisão, que parece tão nítida quando dita assim, se desfaz por completo quando observo a composição real das duas linhagens. Na família negra do meu pai, há genes brancos e indígenas. Na família branca da minha mãe, há também genes negros e indígenas (sem falar dos outros ancestrais que compõem nossa história familiar…). A mistura está em todos os lados, como está em praticamente todas as famílias brasileiras. O Brasil é, antes de tudo, um país de famílias multiétnicas. E eu tenho cá para mim que o Brasil não é o único país a ter essa composição. Então vai uma pergunta para minha própria reflexão: para que sustentar esse sistema de privilégios de pessoas consideradas brancas, ou melhor, pessoas classificadas como brancas, em detrimento das outras composições étnicas brasileiras?

Voltando à minha experiência étnico-racial, o que nunca foi misturado — e isso é decisivo — foi o modo como a sociedade tratou cada lado da minha família, ou melhor, cada membro de cada uma das minhas famílias ancestrais. A família do meu pai sempre foi recebida com mais desconfiança, mais vigilância, mais preconceito. A família da minha mãe sempre foi tratada com respeito, como elite, como gente “de posição”. A genética não explica isso. A biologia não explica isso. A história explica. A pretensa estrutura racial brasileira explica.

Eu mesmo vivi essa contradição de forma íntima: fui tratado como branco, enquanto meus irmãos foram tratados como negros. A mesma casa, os mesmos pais, a mesma origem — mas fenótipos diferentes. No princípio parecia pura coincidência, mas depois fui observando que as coincidências também ocorriam em outros lares. E, por causa disso, destinos sociais diferentes. Essa experiência me ensinou algo fundamental: no Brasil, racismo não é sobre sangue, nem sobre porcentagem genética, é sobre como o mundo te lê.

É por isso que, quando me pergunto sobre minha posição política — se sou adepto do chamado “pardismo” ou da negritude — a resposta não vem de teorias abstratas, mas da minha própria vida. O “pardismo”, tal como tem sido veiculado nas redes sociais recentemente, tenta transformar a experiência da mistura em uma identidade política separada da negritude (e se cala em relação à sua identidade com a branquitude). Mas a minha história — e a história da minha família — mostra que essa separação não existe na prática. O racismo não separa pardos de pretos e de indígenas. O racismo separa brancos de não brancos, ou pior, o racismo separa os que são lidos como brancos dos que são lidos como não brancos. E é daí que surge a necessidade de um movimento contra o racismo, contra a “branquitude”, o que não é o mesmo que dizer “contra os brancos”, pois há de se fazer a diferenciação. O movimento negro é um deles. Deveriam ter mais, na minha opinião, pois não brancos no Brasil compreendem uma gama enorme de etnias e de colorações.

E é justamente porque luto pela superação do racismo que estou inteiramente inserido nos movimentos negro e indígena, mas também estaria envolvido com outros movimentos de não brancos. A branquitude não me representa, ainda que me constitua (“et voilà”, mais uma contradição existencial descoberta e autorrevelada!). Absolutamente nada contra pessoas brancas (eu amo as minhas duas avós). O problema é social, refere-se à forma como algumas pessoas brancas se comportam em sociedade, a forma como essas pessoas roubam a narrativa da história dos brasileiros. O supremacismo branco é perigoso — não apenas para pessoas negras, mas também tóxico para toda a civilização humana. Se eu fosse a favor desse tipo de preconceito, talvez tivesse me inserido na branquitude, reproduzindo a lógica que sempre beneficiou alguns membros da minha família e sufocou outros. Mas não é isso que eu quero para mim, nem para o Brasil.

Meu ideal é que, no futuro, cor seja apenas cor, nada mais. Mas esse futuro não chega sozinho, porque é provocado, é feito, tem de ser construído. Antes dele, há um problema social gigantesco que precisa ser enfrentado: o racismo estrutural. E enquanto esse problema existir, eu não tenho dúvidas de que meu lugar é ao lado da negritude e dos indígenas. A negritude e os povos originários me constituem — tanto quanto a branquitude me constitui — mas é a negritude e o indígena que estão sendo abafados, silenciados e destruídos. São eles que precisam de defesa, de voz, de presença. São eles que precisam de aliados, e eu sou um deles, não por teoria, mas por história, por vivência, por consciência. Talvez minha luta contra a branquitude seja por necessidade mesmo. Necessidade interna de rever os valores que correm em minhas veias, pois parte do que me constitui já não me serve mais.

Há, porém, um ponto adicional que raramente é discutido com a profundidade necessária: no Brasil, não deveríamos falar de “brancos” nem de “branquitude” como se fossem identidades biológicas ou culturais estáveis. Grande parte da população considerada “branca” possui ancestralidade indígena e africana, como mostra claramente a tela “A Redenção de Cam”. A própria ideia de “ser branco” no Brasil é uma ficção social, uma construção política, uma máscara histórica. E, no entanto, essa máscara é poderosa o suficiente para negar não apenas a existência de negros, mas também a de todos aqueles que não se encaixam no ideal de branquitude, cujo conceito, diga-se de passagem, vem de terras alheias à Pindorama, do sangue velho dos avós!

O mais irônico — e trágico — é que muitos dos que se proclamam brancos no Brasil não são brancos no sentido histórico ou genético. São pessoas que não querem enxergar suas próprias histórias, suas próprias misturas, suas próprias raízes. A branquitude brasileira é, muitas vezes, uma fuga da ancestralidade e uma recusa da pluralidade. É uma tentativa de se aproximar do poder. É uma negação de si mesmo. Vou nomear essa galera de “pardo branco”.

E os poucos grupos que ainda preservam uma ideia de “pureza branca” no Brasil são, em geral, comunidades recém-chegadas (muitas vezes fugidas), que transplantaram para cá estruturas sociais e culturais dos países de origem, ainda que tivessem saído de lá em condições complicadas (para dizer o mínimo). Vivem em bolhas, isolados, tentando reproduzir um mundo que não existe mais — e, no fundo, não são felizes aqui. Não pertencem ao Brasil como é conhecido lá fora: mestiço, indígena, negro, plural.

O “pardo branco” é, na verdade, o pardo da concessão: alguém que recebe da branquitude um passe temporário para circular como branco, desde que não questione a estrutura que o tolera. Essa brancura concedida não é pertencimento, é permissão — e como toda permissão, pode ser retirada a qualquer momento, bastando uma mudança de contexto qualquer. O “pardo branco” vive numa fronteira instável: é embranquecido quando convém à ordem social, mas rapidamente reenviado ao lugar da negritude quando a branquitude se sente ameaçada. Ele não é branco; ele é branqueado (como as roupas que são colocadas em água sanitária). E o branqueamento, no Brasil, nunca é definitivo — é uma estratégia de controle, não de inclusão.

O “pardo branco” vive sob uma lógica de condicionamento permanente: para ser percebido como branco, ele precisa performar a branquitude. Isso significa esconder sua ancestralidade não branca, silenciar sua história familiar, minimizar seus traços não brancos e, ao mesmo tempo, exibir e exagerar sua ancestralidade europeia, mesmo quando ela é apenas uma fração de sua composição real. Mas não é só isso.

O “pardo branco” também precisa agir como branco, vestir‑se como branco, adotar códigos de comportamento, linguagem e postura associados à branquitude. Precisa negar a negritude — a sua e a dos outros — como se o preço do passe fosse o abandono de uma parte essencial de si. Essa branquitude não é identidade, é performance; não é pertencimento, é concessão; não é reconhecimento, é renúncia. E toda renúncia cobra um preço emocional e político alto, porque ninguém consegue ser inteiro quando precisa amputar sua própria história para caber no olhar do outro.

Diante de tudo isso, reafirmo minha posição: sou pardo, mas sou pardo na luta negra e na luta indígena, não fora delas[2]. A minha vida me ensinou que a mistura não me afasta da negritude — ela me leva até ela. A mistura me faz sentir mais pertencente à Pindorama. E me faz feliz! E por incrível que pareça, me faz mais brasileiro, daquele tipo que não desiste nunca. A minha história familiar me mostrou que a negritude é parte constitutiva de quem eu sou. Também me mostrou que os componentes indígenas são intrínsecos ao meu modo de ser. E a minha consciência política me diz que, enquanto houver racismo estrutural, enquanto a branquitude continuar negando a existência de quem não se encaixa em seu ideal estreito, enquanto a desigualdade racial continuar moldando destinos, o meu lugar é ao lado da negritude e dos indígenas. Mesmo porque quando a branquitude se superar, o movimento negro perderá a razão de existir e os indígenas passarão a ser vangloriados. Porque nem a negritude nem o movimento indígena, como povos pardos, negam o branco. Mas a branquitude, como estrutura, nega o negro e o indígena — e nega o próprio Brasil. E pessoas morrem por causa disso. Pessoas ficam miseráveis por causa disso. Pessoas enlouquecem por causa disso. E eu escolho estar do outro lado, até que a segunda margem do rio desapareça, e a terceira margem, enfim, desça sobre nós.

A luta contra o racismo permanece uma das frentes mais decisivas para enfrentar as desigualdades e desmontar os falsos consensos que estruturam a sociedade brasileira. Trata-se de uma responsabilidade que precisa ser assumida, sobretudo, pela branquitude — que, paradoxalmente, é quem mais vocaliza insatisfações com as contradições da vida social no país. Enquanto o racismo continuar operando como mecanismo de exclusão — atingindo negros, indígenas, sul-americanos, asiáticos, árabes e mestiços — ele seguirá corroendo o funcionamento do próprio Brasil. É um alerta: não haverá qualidade de vida social possível enquanto o racismo permanecer como fundamento silencioso das relações cotidianas.

Enfrentar esse quadro exige uma espécie de faxina no guarda-roupa da família brasileira. Nesse carrossel maluco, que mais parece uma montanha-russa, a posição do pardo é dificílima. Mas, como dizia meu avô: “rapadura é doce, mas não é mole não…” É preciso descartar o que já não serve, mesmo quando impregnado de afeto e memória dos avós; reaproveitar o que ainda tem valor; e reformar aquilo que pode ser ressignificado. Não se trata de apagar o passado, mas de reorganizá-lo com honestidade. Um gesto de cuidado com a verdade histórica, com a complexidade humana e sua história e com a necessidade de olhar o país sem simplificações. Iluminar o que existe é o primeiro passo para a transformação. Impávido, como Muhammad Ali!

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